sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sobre bichos e farturas

O Bicho
Vi ontem um bicho .
Na imundície do pátio catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

não era um gato,

não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


Hoje a caminho do metrô, eu vi um bicho.

Ele revirava um monte de quentinhas retorcidas, abria, cheirava e comia o que julgava bom.

Não consegui parar de olhar. Lembrei do meu almoço na bolsa , ofereci.

Uma quentinha suja virou prato.

Fui embora com um nó na garganta, pensando em Manuel Bandeira , uma vontade enorme de chorar e muitos pensamentos ...

O que é um almoço diante da fome do bicho?

Primeira vez ao vivo.

Em meio de minha fartura, a fome do bicho, ao vivo, a cores e ao meu lado, doeu em mim.

A vida real é infinitamente mais triste que a poesia.

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