sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sobre bichos e farturas

O Bicho
Vi ontem um bicho .
Na imundície do pátio catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

não era um gato,

não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


Hoje a caminho do metrô, eu vi um bicho.

Ele revirava um monte de quentinhas retorcidas, abria, cheirava e comia o que julgava bom.

Não consegui parar de olhar. Lembrei do meu almoço na bolsa , ofereci.

Uma quentinha suja virou prato.

Fui embora com um nó na garganta, pensando em Manuel Bandeira , uma vontade enorme de chorar e muitos pensamentos ...

O que é um almoço diante da fome do bicho?

Primeira vez ao vivo.

Em meio de minha fartura, a fome do bicho, ao vivo, a cores e ao meu lado, doeu em mim.

A vida real é infinitamente mais triste que a poesia.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Eu me lembro

Lembro quando você falou que eu era uma grande filha da puta e foi embora batento o portão.
Lembro que tive vontade de passar o gilete nos pulsos para parar o impulso de ligar.
Lembro que não fui trabalhar, não fui para faculdade e passei o dia esperando o telefone que não tocou, a campanhia que não tocou, o recado no orkut que não foi escrito.
Lembro que vc esteve na minha casa, não quis falar comigo, pegou os livros de Clarice que tinha me emprestado e jogou de qualquer jeito dentro de uma sacola do Bom Preço. Esqueceu que não se joga os livros da Clarice de qualquer jeito? Ainda mais numa sacola do Bom Preço...
Lembro de ter corrido pro portão , de ter ouvido vc bater a porta do carro com muita força e de ouvir vc soluçar baixinho.
Vc passou meia hora ali. Depois acelerou e foi.
Lembro que vc deixou na minha bolsa uma garrafa de água mineral pela metade, duas balas Haus, um par de ingressos para o filme Direito de Amar, que não assistimos pois eu preferi ver Preciosa no São Luiz , agora tá faltando coragem de ir a Fundação.
Lembro de você me dizendo que eu era uma grande filha da puta.
E depois o silêncio, um silêncio enorme.